sábado, 22 de novembro de 2014

Montanhismo Brasileiro

O Pão de Açúcar
No Brasil, até o século XVIII, algumas montanhas já haviam sido escaladas. Porém, tais ascensões, realizadas principalmente por bandeirantes, tinham caráter exploratório e não ficaram registradas. No início do século XIX, mais precisamente em 1817, foi registrada a primeira ascensão ao cume do Pão de Açúcar (396m), no Rio de Janeiro. A inglesa Henrietta Carsteirs, aos 39 anos, aventurou-se pela rocha e fincou a bandeira de seu país no topo. Quem sabe o eco do Mont Blanc havia chegado às terras tupiniquins? Talvez ela tenha sido influenciada pela primeira ascensão feminina ao Mont Blanc, em 1808. Mas isso é apenas uma suposição.
Pedra da Gávea, RJ - Brasil. Foto dos autores.O certo é que esse acontecimento causou certa agitação na cidade do Rio de Janeiro, seja pelo seu cunho de audácia ou por despertar sentimentos nacionalistas nos colonizadores portugueses. Motivado por esse sentimento, no dia seguinte ao feito de Carsteirs o soldado lusitano José Maria Gonçalves chegou ao cume do Pão de Açúcar. Lá, trocou a bandeira do Reino Unido pelo Pavilhão Real Português.

Neste mesmo século, outras montanhas viriam a ser conquistadas no Brasil. Em 1824, D. Pedro I acompanhou pessoalmente a abertura de uma trilha até o cume do Corcovado (704m), também no Rio de Janeiro. Em 1828, já eram registradas ascensões à Pedra da Gávea (842m). Em 1841, foi atingido o cume da Pedra do Sino (2.263m), em Teresópolis, no Estado do Rio de Janeiro. Em 1879, o Monte Olimpo Agulhas Negras, RJ - Brasil. Foto dos autores.

O Dedo de Deus
O dia 8 de abril de 1912, no entanto, marcou definitivamente o início do montanhismo no Brasil, exatamente como a ascensão do Mont Blanc havia decretado o início do alpinismo, quase 126 anos antes. Neste dia, um grupo de teresopolitanos chegou ao cume do Dedo de Deus (1.675m), na Serra dos Órgãos, em Teresópolis. Antes, alemães já haviam tentado escalar a montanha, mas foram vencidos pelo difícil acesso e pelas diferenças em relação ao tipo de rocha a que estavam acostumados na Europa. Este fracasso e a presunçosa afirmação posterior dos alemães, de que, se eles não conseguiram conquistar o Dedo de Deus, ninguém mais conseguiria, foi o que motivou José Teixeira Guimarães a escalar a montanha. Ferreiro pernambucano radicado em Teresópolis, ele foi acompanhado na empreitada por RaulA conquista do Dedo de Deus foi realizada pela face oposta à que se vê na foto. Foto dos autores.Carneiro, um caçador local que serviu de guia aos alemães pelas matas da serra, e os irmãos Alexandre, Américo e Acácio de Oliveira.
Foram ao todo sete dias acampados na base da montanha. Para vencê-la, Teixeira e seus companheiros fixaram grampos como proteções no granito, além de grossas varas de bambu, munidas de degraus, para vencer os trechos mais lisos da parede. Também subiam nos ombros uns dos outros para conseguir ganhar altura. Por sorte, muitos trechos da via de conquista contam com chaminés, o que facilita a ascensão.
Foi assim, com muita criatividade e suor, que eles conseguiram atingir o cume, sendo recebidos depois como heróis e com muita festa em Teresópolis. Até mesmo o então presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca, tomou conhecimento do feito e mandou um telegrama de congratulações. Foram necessários quase 20 anos para que o Dedo de Deus voltasse a ser escalado. Porém, antes disso, em 1919, houve um segundo fato de extrema importância para o montanhismo nacional: a fundação do primeiro clube excursionista da América do Sul, o Centro Excursionista Brasileiro (Ceb), no Rio de Janeiro.
Leia mais sobre a conquista do Dedo de Deus aqui.

A Serra dos Órgãos

No Brasil, na década de 1930, o grande palco para os escaladores foram as belas montanhas da Serra dos Órgãos, na região serrana do Rio de Janeiro. Sobre esse período, Waldecy Lucena, no livro “História do Montanhismo no Rio de Janeiro” (Editora Publit), escreveu: “Os anos 1930 foram gloriosos em termos de aprendizado e novas conquistas. Passada a fase de amadurecimento, que se deu nos anos 1920, os excursionistas, principalmente do Ceb, deixaram para trás as montanhas de ascensão mais fácil e passaram a explorar as mais ousadas”.A via normal do Nariz do Frade (Serra dos Órgãos, Teresópolis). Foto Antonio Paulo.
Em 1931, o Escalavrado e o Cabeça de Peixe foram subidos pela primeira vez e, no ano seguinte, foi aberta a Travessia Petrópolis-Teresópolis. Em 1933, o Nariz do Frade foi escalado por teresopolitanos e, em 1934, o casal Wilfred e Sylvia Bendy chegaram pela primeira vez ao topo do Dedo de Nossa Senhora. Também em 1931, após várias tentativas, foi realizada, 19 anos depois, a primeira repetição do Dedo de Deus, por Richard Brackmann, Otto Hartmann e Karl Siegel. A foto deles no cume foi estampada na primeira página do jornal O Globo, e não deixa dúvidas quanto ao êxito da empreitada. 
No início da década de 1930 também foram conquistados o Santo Antônio, São João, São Pedro e Garrafão, todos na Serra dos Órgãos, e a Maria Comprida, em Araras (Petrópolis). Nestas últimas montanhas nota-se a participação de Emerico Ungar, o primeiro grande desbravador da Serra dos Órgãos. Pelos nomes dos montanhistas de então percebe-se que havia um predomínio de estrangeiros, principalmente alemães e austríacos. Eles viviam no Brasil, mas já traziam de seus países noções de escalada e o amor pelas montanhas. Entre eles, o de maior destaque na época foi Richard Willy Brackmann, responsável pela primeira repetição do Dedo de Deus e por 32 primazias e conquistas, incluindo inúmeras montanhas em Itatiaia, além do Cabeça de Peixe e dos Picos Menor e Médio de Salinas, em Nova Friburgo.
Logo também surgiram novos clubes, como Petropolitano, Friburguense, Teresopolitano e o Centro Excursionista Rio de Janeiro (Cerj), que, no mesmo ano de sua fundação, 1939, criou a primeira escola técnica de guias do País.
A Agulha do Diabo
Na década de 1940 as coisas não mudaram muito, apenas pelas tentativas de montanhas ainda mais difíceis e complexas do que as de antes. O símbolo desta década, pela dificuldade que representava na época, é a conquista da Agulha do Diabo, em 1940. Seu cume só foi pisado depois de dois anos de investidas e de 26 grampos batidos pelos conquistadores, os brasileiros Giuseppe Toselli, Almy Ulissea e Roberto Menezes de Oliveira, o italiano Raul Fioratti e o alemão Günther Bucheister, todos membros do Ceb. O equipamento utilizado e a técnica de conquista eram os mesmos dos primórdios. A rocha lisa era perfurada por dias, içando-se em seguida pesados troncos e cabos de aço.
Pico Maior,onde fica a via Sylvio Mendes. Foto dos autores.
A Agulha do Diabo (Serra dos Órgãos, Teresópolis). Foto dos autores.
No centro da parade da face sul do Corcovado está a Chaminé Rio de Janeiro. Foto dos autores.Em 1944, foi realizada uma outra importante conquista, a chaminé Stop, por Sylvio Mendes, um escalador à frente de seu tempo, e os irmãos Guido e Rolf Vergelle. Com 240 metros, foi a primeira grande via do Pão de Açúcar e a segunda na montanha. Foi uma conquista rápida e com poucos grampos para os padrões da época. Sylvio Mendes também conquistou o Pico do Itabira em Cachoeiro do Itapemerim (Espírito Santo), em 1947, com cerca de 400 metros e que foi considerada durante muito tempo a via mais difícil do Brasil. Ele conquistou também o Pico Maior, em Salinas, Nova Friburgo (RJ), em 1946, junto com Índio do Brasil e Reinaldo dos Santos, (via Sylvio Mendes, com 300 metros), e a chaminé Rio de Janeiro, na face sul do Corcovado, em 1949 (350 metros), com Índio do Brasil e Reinaldo Behnken, a primeira via aberta na mais vertical parede da cidade do Rio de Janeiro. Sylvio era membro do Cerj, clube que contava com excelentes escaladores nesta época, entre eles os já citados Índio do Brasil e Reinaldo Behnken.
adeusz Hollup durante um rapel típico da época, com a corda no corpo. Foto arquivo Guido Vergelle.
O equipamento utilizado na época: corda de sisal e botas com cardas na sola. Foto arquivo CEC/Ivan Calou.adeusz Hollup numa repetição da Chaminé Stop (Urca, Rio de Janeiro), em 1952. Foto arquivo Guido Vergelle.
Importante também foi a conquista da face leste do Dedo de Deus, que se tornaria a via normal desta montanha. Utilizando apenas proteções naturais, pitons e cunhas de madeira, sem nenhum furo na pedra, Almy Ullysea, Antônio Taveira e Ulysses Braga, todos do Ceb, chegaram ao cume em 1944.
Em outros Estados do País a escalada técnica também se desenvolvia. No Paraná, mais precisamente no Marumbi, elas eram abertas desde 1942. A partir de 1948, com os ensinamentos de Erwin Gröger, começaram as conquistas mais ousadas, como a fenda principal no Abrolhos. Em São Paulo, a Pedra do Baú foi escalada pela primeira vez em 1940, pelos irmãos Antônio e João Teixeira de Souza. No final dos anos 1950, Domingos Giobbi, fundador do Clube Alpino Paulista (Cap), criou três campos-escola no Pico do Jaraguá, onde foram ministrados os primeiros treinamentos do clube. Em 1952, Edgar Kittelmann, Luis Gonzaga Cony e Giuseppe Gâmbaro realizaram a primeira escalada do Rio Grande do Sul, no Pico dos Gravatás, em Gravataí. 
O conjunto Marumbi, Paraná. Foto dos autores.A Pedra do Baú (São Bento do Sapucaí, São Paulo). Foto Silvio Neto.
A face leste do Dedo de Deus (Serra dos Órgãos). Foto dos autores.

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